Artigo de Opinião – Por Zeller do Valle Bernardino, Associado Trainee do Instituto Líderes do Amanhã
Desde sua vitória nas eleições americanas de 2024, Donald Trump tem sido apontado como um símbolo da ascensão da direita global, acendendo um alerta na esquerda brasileira para as próximas eleições em 2026. As vitórias de nomes como Trump nos Estados Unidos e Javier Milei na Argentina reforçam a percepção de que a onda de direita continua fortalecida no cenário político global. Esses resultados têm gerado debates sobre o futuro das políticas da esquerda em um contexto de polarizações e crises econômicas.
Já no Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta um cenário complicado. Segundo pesquisa recente do instituto Atlas Intel, sua taxa de rejeição ultrapassa a casa dos 60%, sendo a maior de seus mandatos como presidente do Brasil. Um dos principais motivos para essa baixa é o aumento da inflação de alimentos, que impacta principalmente as classes pobres. Apesar disso, Lula mantém um discurso que prioriza o uso da máquina pública para estimular a economia, defendendo subsídios para fomentar a indústria nacional e aumentar o limite de isenção de imposto de renda. Essas medidas são vistas por muitos economistas como insustentáveis a longo prazo, dado o grave problema de déficit nas contas públicas, que chegou a atingir R$ 230 bilhões em 2023, segundo dados do Tesouro Nacional. Justamente essa política fiscal expansionista faz com que fique mais difícil combater a inflação, dado que os gastos estatais consomem boa parte da demanda agregada da economia, estimulando a inflação.
A visão de Lula sobre o papel do Estado como principal motor da economia remete às políticas praticadas no país desde os anos 1930, com foco na industrialização por meio da intervenção estatal. Embora essa ideia possa gerar algum resultado no curto prazo, no longo prazo elas agravam o problema da dívida pública, geram inflação e perda de competitividade da economia. Com a eleição de Trump, acendeu-se um alerta que parece ter reforçado a aposta de Lula em medidas mais populistas para tentar recuperar sua popularidade e garantir sua reeleição em 2026.
Curiosamente, apesar de representarem espectros políticos opostos, Trump e Lula compartilham algumas semelhanças em suas abordagens econômicas, por incrível que pareça. Ambos enxergam na imagem da fábrica como um sinônimo de desenvolvimento, uma visão que remete a um modelo do século XX, baseado na ideia de que a industrialização é sinônimo de progresso. Hoje em dia, as cadeias de produção estão espalhadas pelo mundo e as fabricas cada vez mais mecanizadas, necessitando de cada vez menos operários para produzir a mesma quantidade de produtos. Essa mudança fez com que o acesso a bens e serviços crescesse exponencialmente na segunda metade do século XX. Por exemplo, se o iPhone fosse totalmente produzido nos Estados Unidos, seu custo seria significativamente mais alto, tornando-o inacessível para boa parte dos consumidores. A produção globalizada permite que componentes sejam fabricados em diferentes países, onde os custos são menores, resultando em produtos mais baratos e acessíveis. A mecanização da produção fez com que menos trabalhadores fossem necessários para se produzir, gerando mais eficiência e reduzindo custos. Esse ganho de eficiência gerou uma redução significativa da pobreza e permitiu que países se desenvolvessem.
Cabe lembrar que, embora Trump seja associado a uma posição pró-mercado, sua política econômica não é favorável ao livre mercado, mas sim pró-empresas. Ele ameaça usar medidas que beneficiam setores específicos que o ajudaram a se eleger, como as indústrias do Centro-Oeste americano, por meio de tarifas protecionistas, em vez de promover uma competição aberta. Isso pode criar algumas distorções no mercado, favorecendo algumas grandes empresas em detrimento de pequenas e médias, além de limitar a inovação e a eficiência econômica. O maior prejudicado com as medidas anunciadas pelo presidente americano são os consumidores americanos. Ludwig von Mises, em seu livro “As Seis Lições”, firma que em uma economia de livre mercado, a figura central é a do consumidor, que vota em quem vão ser os ganhadores da competição no mercado.
No mundo globalizado, com o advento das cadeias globais de produção, inovação tecnológica e uma economia cada vez mais baseada em serviços e capital humano, a ideia de que o Estado precisa agir para estimular a indústria nacional para um país ser desenvolvido está fracassada. O Brasil é um exemplo disso, pois implementou esse tipo de medida ao longo de sua história e hoje segue sendo um país de renda média. Na realidade, o desenvolvimento está mais associado à capacidade de gerar ganhos de produtividade e um ambiente de negócios favorável ao empreendedorismo e inovação. Ao defender a ação do Estado para beneficiar a indústria nacional, com taxas e subsídios, tanto Lula quanto Trump correm o risco de restringir o acesso a insumos e tecnologias necessários para a competitividade da indústria nacional. Isso leva ao aumento dos preços dos bens, queda na inovação e, consequentemente, perda da eficiência econômica.
Nos EUA, as tarifas defendidas para os produtos chineses resultaram em aumento de preços para os consumidores americanos e retaliações comerciais que afetaram setores como a agricultura. Já no Brasil, a insistência em subsídios e políticas protecionistas levou a preços ao consumidor muito mais elevados que os praticados por outros. Trump é claramente um presidente de direita, mas de maneira nenhuma alguém que defende protecionismo econômico ou que ameaça tomar outros países pode ser considerado um defensor de ideias liberais.
Em resumo, apesar de Trump e Lula representem ideologias distintas, ambos parecem presos a uma visão ultrapassada de desenvolvimento econômico, baseada na defesa da indústria nacional por meio do protecionismo econômico. Enquanto Lula defende uma intervenção estatal mais direta, Trump defende uma política mais pró-empresas que, embora pareça ser diferente na forma, também gera distorções para o mercado e beneficia grupos minoritários em detrimento da maioria de consumidores. No mundo atual, em que a maior integração e a inovação são fatores determinantes, políticas como essas se mostram ineficazes. Para garantir um crescimento sustentável e inclusivo, é essencial priorizar a criação de um ambiente de negócios que estimule a produtividade e a competitividade entre as empresas e os trabalhadores. Sem isso, os maiores prejudicados vão continuar sendo os mais vulneráveis, distanciando cada vez mais a sociedade de um futuro mais próspero.