Resenha Crítica – Por Efigenia Brasilino, associada II do Instituto Líderes do Amanhã
A natureza humana é, em sua essência, a maior colaboradora da efetividade da vida em sociedade. É na capacidade de se organizar, plantar, colher, fazer guerra, defender-se, constituir família ou vínculos de afeto e, especialmente, racionalizar suas próprias ações, que a vida em grupo ganha sentido e prosperidade.
Os indivíduos podem discordar nas crenças e valores, mas os fatos e a própria história demonstram que é em uma sociedade minimamente livre, baseada em interesses mútuos e trocas voluntárias que as ideias florescem. Algumas são excelentes e iluminadoras; outras, nem tanto.
Diferentemente do ditado que diz que são as perguntas que movimentam o mundo, são as ideias que o movem, especialmente as embasadas com gráficos ou dados, considerando que vivemos uma era de digitalização.
Para que o homem voasse e o primeiro avião decolasse, um indivíduo sonhou e, de forma consciente e racional, trabalhou no campo da ciência e das ideias. De maneira contrária, com a ideia do poder supremo, um indivíduo com status de ministro profere decisões baseadas em sua própria convicção, julgando, investigando e acusando, citando a si mesmo mais de 40 vezes em um processo.
É sobre essa e outras más ideias que o economista e filósofo social Thomas Sowell trata na obra “Os Ungidos”, publicada originalmente em 1995, oferecendo uma análise crítica das ideias e políticas sociais promovidas por elites intelectuais e políticas.
A obra examina como essas elites, movidas por ideias e pela sensação de superioridade moral e intelectual, implementam políticas que frequentemente desconsideram evidências empíricas e ignoram as consequências não intencionais de suas ações.
O livro está organizado em capítulos que abordam diferentes aspectos da mentalidade dos ungidos e suas implicações práticas. Sowell utiliza exemplos históricos e contemporâneos para ilustrar como políticas baseadas na visão dos ungidos foram implementadas e quais foram seus resultados.
O autor ainda discute temas como criminalidade, educação, pobreza e políticas públicas, demonstrando como intervenções bem-intencionadas podem levar a resultados adversos quando não são fundamentadas em evidências sólidas.
Em um exemplo prático, Sowell apresenta as regras de restrição de liberação de medicamentos americanos (Food and Drug Administration – FDA), cuja circulação já está liberada na Europa. As restrições, por vezes, são levantadas por elites intelectuais sob fundamentos não cientificamente comprovados, às custas de milhares de vidas. Esse é o melhor exemplo em que os ungidos priorizam intenções sobre resultados.
No Brasil, é evidente a implementação de políticas ineficazes e prejudiciais baseadas na visão dos ungidos. Por exemplo, a PEC 6×1 discute a limitação da jornada de trabalho e o bem-estar social, propondo a implementação de uma escala 4×3, em que trabalhadores teriam não mais um ou dois dias de folga, e sim três, com garantia de manutenção dos salários nos níveis atuais.
Esquece, porém, a formuladora da política pública, que indústrias, fábricas, comércios, shoppings e toda a classe produtora necessitam de mão de obra. Consequentemente, ao invés de aliviar a população trabalhadora, medidas restritivas e protecionistas do ponto de vista trabalhista podem desincentivar o trabalho e gerar desemprego. Além disso, o problema central do tema em questão está na queda da produtividade da mão de obra, o que exigirá a contratação de mais pessoas e, consequentemente, puxará os custos gerais das operações (e aumento da inflação).
Outra grande contribuição da obra é a matriz de distinção entre a visão dos ungidos e a visão trágica da natureza humana. Enquanto os ungidos acreditam na isonomia atingida com políticas igualitárias e mobilidade social para resolver problemas, a visão trágica reconhece as limitações inerentes à condição humana e enfatiza a importância de instituições que evoluíram ao longo do tempo para lidar com essas imperfeições.
Por fim, quase no término da obra, Sowell analisa como as elites intelectuais utilizam a linguagem para moldar percepções e influenciar políticas públicas. Termos e expressões são estrategicamente empregados para promover agendas específicas, muitas vezes mascarando intenções reais ou desviando o foco de questões centrais.
Sowell destaca o uso de eufemismos e construções verbais que suavizam ou distorcem a realidade, facilitando a aceitação de determinadas políticas sem uma análise crítica aprofundada. Essa manipulação linguística, segundo o autor, serve para legitimar as ações dos “ungidos” e marginalizar opiniões divergentes, reforçando a narrativa de que suas propostas são moralmente superiores e incontestáveis.
Um célebre exemplo é o “lugar de fala”, uma forma de desmoralizar qualquer opositor à ideia ou crítica que não pertença a certo grupo, parte de características pessoais ou econômicas equivalentes. Um homem que trabalhe e estude, por exemplo, não teria aptidão para falar sobre uma mulher que trabalha e estuda, pois ele não é mulher, e são as mulheres que mais sofrem. Falácia maior não há, uma vez que este homem pode morar em uma favela e levar três horas no transporte público, enquanto a mulher pode morar ao lado do trabalho.
As ideias e políticas dos ungidos devem, antes de tudo, ser analisadas com meticulosidade. Quer sejam cientistas, professores, escritores, historiadores, jornalistas ou políticos, vez que no papel de desenvolvedores e promotores de ideias, é necessário pô-las à prova. Não por questão de ego ou para refutar a intelligentsia, e sim como forma de afastar políticas progressistas e manter a liberdade de cada indivíduo. Embora publicado há quase três décadas, “Os Ungidos” permanece relevante, especialmente em debates atuais sobre políticas públicas e o papel das elites intelectuais na sociedade. A crítica de Sowell à desconexão entre intenções e resultados continua pertinente, servindo como um alerta sobre os perigos de implementar políticas sem uma análise cuidadosa de suas possíveis consequências.