Resenha Crítica – Por Gustavo Neris Bastos, Associado II do Instituto Líderes do Amanhã
Nascida em São Petersburgo, na Rússia, no ano de 1905, Ayn Rand foi uma importante escritora e filósofa, conhecida principalmente por seus romances e pelo desenvolvimento do seu sistema filosófico denominado objetivismo. Rand defendia o egoísmo ético, o liberalismo e rejeitava o altruísmo e qualquer forma de estatismo. Em 1926, após receber um visto para visitar parentes, foi para os EUA e de lá não saiu mais, posteriormente tornando-se cidadã estadunidense. Morreu no ano de 1982, aos 77 anos, na cidade de Nova Iorque. Com a publicação, em 1957, Atlas Shrugged foi a principal obra pela qual a autora ficou conhecida.
O livro foi publicado no Brasil pela primeira vez em 1987, com o título “Quem é John Galt?”, e foi relançado no ano de 2010, já com o título mais conhecido: A Revolta de Atlas. De grande extensão (a edição brasileira de 2010 possui 3 volumes e um total de 1168 páginas), é tido como um dos livros mais influentes do século XX.
A Revolta de Atlas expressa de forma dramática o egoísmo ético de Rand, sua defesa do “egoísmo racional”, em que todas as principais virtudes e vícios são aplicações do papel da razão como ferramenta básica de sobrevivência do homem (ou uma falha em aplicá-la): racionalidade, honestidade, justiça, independência, integridade, produtividade e orgulho. Os personagens de Rand geralmente personificam sua visão dos arquétipos de várias escolas de filosofia para viver e trabalhar no mundo. Na obra, a autora rejeitou a convenção literária de que a profundidade e a plausibilidade exigem personagens que sejam réplicas naturalistas dos tipos de pessoas que encontramos na vida cotidiana, proferindo diálogos cotidianos e buscando valores cotidianos. Mas ela também rejeitava a noção de que os personagens deveriam ser simbólicos em vez de realistas. A própria Rand declarou que os personagens dela nunca são símbolos, mas apenas homens com foco mais nítido do que o público pode ver sem ajuda da visão. Para ela, seus personagens são pessoas nas quais certos atributos humanos são focalizados de forma mais nítida e consistente do que nos seres humanos comuns.
Além das declarações mais óbvias do enredo sobre a importância das indústrias para a sociedade e o forte contraste com o marxismo e a teoria do valor do trabalho, esse conflito explícito é usado por Rand para tirar conclusões filosóficas mais amplas, tanto implícitas no enredo quanto por meio das declarações dos próprios personagens. A Revolta de Atlas caricatura o fascismo, o socialismo, o comunismo e qualquer intervenção do Estado na sociedade como permitindo que pessoas improdutivas “roubem” a riqueza suada dos produtivos, e Rand defende: (i) que o resultado da vida de qualquer indivíduo é puramente uma função de sua capacidade e que (ii) qualquer indivíduo pode superar circunstâncias adversas, se tiver capacidade e inteligência.
A história se passa nos Estados Unidos em uma época indeterminada, tecnologicamente na década de 1950. O governo aumentou consideravelmente seu controle sobre os negócios por meio de uma legislação muito restritiva. Os EUA também parecem estar se aproximando de um período de recessão econômica, com escassez crescente, inúmeras falências de empresas e uma perda significativa de produtividade.
O padrão de organização industrial se assemelha ao do final do século XIX, enquanto o estado de espírito se assemelha mais ao da Grande Depressão da década de 1930. As relações sociais e o nível de tecnologia lembram a década de 1950 (com estética diesel-punk). Muitas das tecnologias do início do século XX estão presentes, com a indústria siderúrgica e as ferrovias particularmente bem representadas. Os aviões a jato estavam em sua infância e a televisão era menos influente que o rádio.
Embora outros países sejam mencionados, como a União Soviética, a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria não existem ou não ocorreram. Os países do resto do mundo são organizados de acordo com regras mais ou menos marxistas, com referências a Estados Populares na Europa e na América do Sul. O sistema econômico apresentado no livro é comparado ao capitalismo do século XIX nos Estados Unidos, que é visto como uma era de ouro perdida.
O crash de 1929, a Grande Depressão (1929), As Vinhas da Ira (1939) e o New Deal (1933–1938, incluindo o Social Security Act de 1935) continuam sendo referências obrigatórias, mas não são mencionados. Dwight D. Eisenhower foi presidente de 1953 a 1961. Entre as inovações, a criação do Departamento de Saúde, Educação e Serviços Humanos dos EUA pode ser vista por alguns como um desenvolvimento (muito parcial) do estado de bem-estar social.
A visão de Rand sobre o governo ideal é expressa pela personagem principal John Galt: “O sistema político que construiremos está contido em uma única premissa moral: nenhum homem pode obter qualquer valor de outros recorrendo à força física, enquanto nenhum direito pode existir sem o direito de traduzir seus direitos em realidade – pensar, trabalhar e manter os resultados – o que significa: o direito de propriedade”. O próprio Galt vive uma vida de capitalismo laissez-faire. O impacto da obra no século XX e até os dias atuais é indelével. O economista da Escola Austríaca Ludwig von Mises, por exemplo, admirava a obra de Rand e afirmava ter sido muito influenciado por ela. Em uma carta para a própria Rand, escrita alguns meses após a publicação do romance, ele disse que a obra oferecia “uma análise convincente dos males que assolam nossa sociedade, uma rejeição fundamentada da ideologia de nossos autodenominados ‘intelectuais’ e um desmascaramento impiedoso da insinceridade das políticas adotadas por governos e partidos políticos… Vocês têm a coragem de dizer às massas o que nenhum político lhes disse: vocês são inferiores e todas as melhorias em suas condições, que vocês simplesmente consideram garantidas, devem-se aos esforços de homens que são melhores do que vocês.” Em suma, trata-se de um livro fundamental para qualquer indivíduo que queira ter uma formação política e econômica ampla e abrir novos horizontes.