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Resenha: 1984

Publicado há mais de setenta anos, 1984 permanece desconfortavelmente atual. Não porque George Orwell tenha previsto redes sociais, inteligência artificial ou sistemas digitais de vigilância, mas porque compreendeu um mecanismo mais profundo: o poder raramente se apresenta como opressão. Em geral, ele chega em nome da segurança, da ordem, da verdade ou do bem coletivo. A fronteira entre proteção e controle torna-se perigosa quando uma autoridade passa a decidir não apenas o que o indivíduo pode fazer, mas também aquilo que ele pode dizer, lembrar e reconhecer como verdadeiro. Em 1984, a liberdade morre antes no espírito do que nas leis.

George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, foi escritor e ensaísta inglês, identificado com o socialismo democrático e profundamente crítico dos regimes totalitários. Essa origem torna seu alerta ainda mais relevante. Orwell não escreve como alguém indiferente às promessas de igualdade, mas como quem percebeu que nenhum projeto político, por mais nobre que seja em sua formulação, permanece imune ao autoritarismo quando concentra poder suficiente para controlar a sociedade. O problema central da obra, portanto, não é apenas uma ideologia específica, mas a pretensão de administrar integralmente a vida humana.

Na Oceania, o Partido controla o trabalho, a informação, os afetos, a linguagem e a memória. As teletelas observam continuamente os cidadãos, enquanto a Polícia das Ideias pune até desvios interiores. Contudo, o objetivo do regime não é apenas obter obediência exterior. O Partido pretende eliminar a própria possibilidade de oposição, até que o indivíduo passe a aceitar como sua a vontade oficial. Winston Smith torna-se perigoso não por possuir armas ou comandar uma revolução, mas porque ainda tenta recordar, duvidar e pensar por conta própria.

A manipulação da verdade é um dos pilares mais perturbadores da obra. Winston trabalha no Ministério da Verdade, alterando documentos antigos para que todas as previsões do Partido pareçam corretas. O episódio da ração de chocolate sintetiza esse mecanismo: o governo reduz a quantidade distribuída à população e, pouco depois, anuncia a nova porção como se representasse um aumento. A mentira se torna possível porque o registro do que aconteceu antes é continuamente apagado, enquanto a lembrança individual é tratada como falha ou suspeita.

Hannah Arendt percebeu problema semelhante em Verdade e Política. Quando os fatos deixam de servir como ponto de partida comum, abre-se espaço para que o poder não apenas interprete a realidade, mas tente substituí-la por outra. Em 1984, Orwell leva essa lógica ao limite: quem controla os registros do passado passa também a controlar aquilo que a sociedade aceita como verdadeiro.

A Novilíngua aprofunda esse processo ao reduzir o vocabulário e limitar as ideias que podem ser formuladas. O próprio Orwell desenvolve essa preocupação no ensaio A Política e a Língua Inglesa, ao mostrar como a deterioração da linguagem também empobrece o pensamento. Em 1984, essa lógica é levada ao extremo: palavras desaparecem, significados são alterados e certos conceitos deixam de ter lugar na linguagem comum.

A reflexão de Orwell dialoga diretamente com Friedrich Hayek em O Caminho da Servidão. Embora partam de tradições políticas distintas, ambos percebem que a concentração do poder não permanece limitada à economia ou à administração. Para executar um projeto centralizado de sociedade, a autoridade precisa controlar escolhas, silenciar resistências e impor uma interpretação comum da realidade. Hayek explica como uma sociedade pode caminhar para a servidão; Orwell mostra o que resta do homem quando ela chega lá.

No Brasil, seria exagerado afirmar que vivemos na Oceania; ingênuo, porém, é ignorar a expansão dos mecanismos de controle. Decisões do STF têm ampliado a intervenção estatal sobre o debate público, o Pix torna as transações rastreáveis, o dinheiro em espécie perde espaço e câmeras se multiplicam nas cidades. Isoladamente, tudo se justifica pela segurança, eficiência ou combate ao crime. O risco orwelliano surge quando esses instrumentos se somam e ampliam a capacidade do Estado de saber cada vez mais sobre o que se diz, o que se compra e por onde se circula. O autoritarismo não chega de uma vez: avança por controles aceitos como necessários.

A grande contribuição de 1984 está em mostrar que liberdade não é apenas ausência de prisão. Ela exige memória, linguagem, contraditório e a possibilidade de dizer não. Também pressupõe responsabilidade individual, pois ninguém deve terceirizar integralmente a própria consciência ao Estado, ao partido, ao grupo social ou ao algoritmo. Orwell não previu exatamente o futuro; mostrou como o poder pode se valer das ferramentas de cada época para ampliar seu controle sobre a realidade.

Autor

Pedro Henrique Sacramento

Pedro Henrique Merote

Associado I

Mendonça e Machado Advogados

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