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Resenha – Arriscando a Própria Pele

Resenha Crítica – Por Brigida Roldi Passamani, Associada II do Instituto Líderes do Amanhã

Nassim Nicholas Taleb é, atualmente, um dos nomes mais comentados do mercado financeiro e da literatura associada às disciplinas probabilísticas e estatísticas. Matemático de formação, PHD em fundos de hedge, tornou-se trader profissional na NYSE Chicago, tendo atuado no mercado de ações de futuro, derivativos e opções. Aos 27 anos, alegando ter alcançado satisfatória liberdade financeira, deixou de negociar e atuar nas bolsas de valores mobiliários americanas, dedicando-se a atividades de pesquisa e acadêmicas.

Arriscando a própria pele: assimetrias ocultas no cotidiano é a quinta obra produzida na coletânea Incerto, traduzida para 41 idiomas, ao lado de best-sellers como “Antifrágil” e a “Lógica do Cisne Negro”. Lançado em 2018, Taleb dedica-se ao adensamento das noções de que incertezas, probabilidade e riscos são elementos necessariamente imbricados em qualquer tomada de decisão.

Ao relacionar os três elementos, afirma que a decisão racional, e sobretudo virtuosa e ética, somente é produzida em um cenário em que haja convergência entre quem decide e quem sofre as consequências da decisão engendrada. Para o autor, estar vivo significa assumir riscos, os quais encontram-se ocultos em toda sorte de acontecimentos da vida, dos mais complexos aos mais triviais, razão pela qual os indivíduos encontram-se submetidos a resultados positivos e negativos a depender do nível de exposição à “verdadeira realidade”.

A acidez da linguagem e do raciocínio utilizado ao longo do texto, os exemplos históricos formulados de forma adjacente às narrativas mitológicas e o tom belicoso para com os seus críticos e “especialistas de blábláblá” permitem que o leitor encontre uma leitura ágil, fluída e dinâmica, sem que a profundidade dos argumentos oferecidos seja dissipada em meio a sátiras e recomendações éticas.

A estrutura literária concebida ao longo das pouco menos de 300 páginas dá ensejo ao desenvolvimento e explicitação de conceitos como o de pathemata mathemata (“norteie seu aprendizado por meio da dor”), ilustrando as justificativas pelas quais o conhecimento adquirido por um indivíduo a partir de experiências reais e pessoais de risco e incertezas são imensamente superiores àqueles apriorística e teoricamente absorvidos em teses abstratas.

A lição sintetizada na afirmação de que “não se pode separar o conhecimento do contato com o chão”. Ao não arriscar a própria pele, encolhe-se em termos éticos e epistemológicos. Não escapam ao escrutínio do autor noções equívocas perpetuadas pelo universalismo, pelo cientificismo e pelo intelectualismo, em oposição à valorização que Taleb recupera e atribui à experiência e ao conhecimento “empírico”, prático, concretamente auferível e testado. Afinal, por definição, explica, o que efetivamente funcionou não pode ser irracional.

Dividido em 8 livros, 19 capítulos, 3 prólogos e 1 epílogo, as páginas são constantemente guarnecidas e intercaladas por frases curtas e objetivas cuja finalidade é a de sintetizar e exprimir, de maneira clara ao leitor, determinadas máximas acerca dos fundamentos e pontos desenvolvidos a cada novo espectro trabalhado. Por si só, acaso listadas de forma isolada aos exemplos e amostragens práticas ao qual Taleb meticulosamente se dedica, tais máximas já seriam capazes de mapear e sumarizar os comportamentos e as premissas necessárias para tomadas de decisões simétricas.

O “agir simétrico” é, para Taleb, aquele em que concorrem, em igual medida e proporção, risco e consequência, de modo que indivíduos e corporações que não se expõem aos riscos associados a determinadas condutas não deveriam se envolver na tomada de determinada decisão.

Aplicado à burocracia, como analisado na obra, é precisamente a desagregação do risco e da consequência no agir público a força motriz de ações intervencionistas, as quais geram, não raras vezes, resultados catastróficos incapazes de serem probabilisticamente mapeáveis (Cisnes Negros), embora esperados e previsíveis – à exemplo do “modelo de negócio de Bob Rubin”, ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos ao tempo da crise de 2008 (quem viabilizou “na caneta” o acúmulo de desequilíbrio ao deslocar e concentrar o risco na direção do mercado e do contribuinte).

Pode-se afirmar, com certa tranquilidade, que a finalidade do livro é a de, em primeiro lugar, esclarecer as razões e, em segundo, ilustrar os contextos adjacentes ao fato de que assimetrias na exposição de riscos levam a desequilíbrios e, potencialmente, à ruína sistêmica.

Para tanto, diversos aspectos das assimetrias são explorados, dos conflitos de agência (entre diferentes players de uma relação: empregadores e empregados, controladores e acionistas minoritários, consumidores e vendedores) aos remanejamentos das normas jurídicas sobre quem arcará com determinados prejuízos (= determinados riscos) de um evento; do combate ao terror ao qual o nível de transparência informacional esperado em operações comerciais.

Religiões, línguas, práticas culturais, mercados e comércio, domínio do discurso e narrativa das minorias, o paradoxo democrático da tolerância de Popper, impérios da antiguidade, relações empregatícias e inúmeros outros eventos perpassam pelo exame analítico e minucioso, típicos da mente do autor – traço que se faz marcante do início ao fim da leitura, a qual acontece sem qualquer percalço ou dificuldade para os leitores, dos mais iniciados aos iniciantes, que fazem seu primeiro contato com doutrina de Taleb.

É preciso colocar a própria pele em jogo. É preciso levar em conta as consequências de cada decisão a ser tomada. Somente quem assume riscos em cenários de incerteza torna-se capaz de avaliar probabilidades, resultados e variáveis de maneira eficaz e correta. É preciso não sucumbir à tentação de delegar riscos e consequências. É preciso riscar ao chão os limites dos riscos que não se pode dar ao luxo de correr, bem como aqueles aos quais não se pode dar ao luxo de não correr.

Ao explorar detalhadamente a responsabilidade individual e as intercorrências agregadas à sua absorção ou transferência, Taleb setoriza indivíduos e segmentos empresariais a partir do nível de exposição ao risco e às assimetrias dessa exposição verificadas no cotidiano. Trata-se de obra dedicada à tessitura e penetração da ética e da razão prática às mais diversas ocasiões da vida humana, abarcando espectros profissionais e pessoais.

Autor

Brigida-Roldi-Passamani

Brigida Roldi Passamani

Associada II

Passamani & Bermudes Advocacia

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