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Resenha – A Revolução dos Bichos

Resenha Crítica – Por Laís Cavalcante, Associada II do Instituto Líderes do Amanhã

“A revolução dos bichos”, de George Orwell, é a única ficção listada entre os dez livros mais vendidos durante a pandemia, em 2020. A pergunta que fica é: como um livro escrito há 75 anos consegue ser tão atual e presente na nossa história? A resposta é simples: certas coisas não mudam. Medidas autoritárias, doutrinadoras, políticos com discursos demagógicos, cujas falsas promessas estão pautadas no bem- estar, prosperidade e felicidade da população estão presentes e enraizadas na nossa história. É por isso que a obra de George Orwell se faz tão presente. Pois retrata a sátira da ditadura soviética, com exemplos reais de poder, política e relações humanas.

Orwell explica que a sua intenção não era criticar ou desacreditar o socialismo, mas sim desfazer o mito de que a União Soviética sob o comando de Stálin vivia em um regime socialista. Para ele, esse mito só enfraquecia e prejudicava o movimento socialista, pelo qual ele próprio lutava.

A obra retrata o cenário da Granja do Solar, onde os animais que ali viviam estavam em extrema insatisfação com os cuidados de Senhor Jones, dono da fazenda. Levando em consideração essa percepção, tudo começa graças à influência do porco chamado Major, que explana para todos os animais um sonho que teve, no qual todos os animais viveriam uma vida feliz, sem serem explorados, com comida farta e longe de humanos. Fazendo uma analogia histórica, Major é Karl Marx. Tanto Major quanto Marx morreram antes de verem a revolução na prática. Entretanto, suas palavras ecoaram após a morte e influenciaram diretamente a Revolução Russa, no caso de Marx e, a Revolução dos Bichos, no caso do Velho Major.

Após sua morte, quem assume o poder de influenciar diretamente a Revolução dos Bichos são dois porcos – Napoleão e Bola de Neve. Os dois porcos influenciam os outros animais da fazenda a comprarem a ideia de uma revolução em que os humanos seriam expulsos da Granja do Solar e quem assumiria o poder seriam os próprios animais, sem trabalho escravo, com felicidade e princípios de bem comum. A partir de então, Bola de Neve e Napoleão conseguem articular a expulsão de Senhor Jones da Fazenda do Solar. Assumindo de uma vez por todas o poder e longe da influência humana, os porcos decidem criar os sete mandamentos, que serviriam de regras para todos os animais, sendo elas: “Aqueles que andam sobre duas pernas são inimigos; aqueles que andam sobre quatro pernas, ou que têm asas, são amigos; nenhum animal usará roupas; nenhum animal dormirá em uma cama; nenhum animal beberá álcool; nenhum animal matará outro animal; todos os animais são iguais.”

De início, essas regras foram seguidas, mas divergências de opiniões entre Napoleão e Bola de Neve começaram a colocar em risco a harmonia da fazenda. Fazendo um aprofundamento e uma contextualização histórica da obra, é possível identificar os animais com as principais figuras que dividiram o mundo em 1945, com a polarização do capitalismo e do socialismo.

De um lado, temos Napoleão. Um líder autoritário, violento e corrupto. Portanto, Napoleão é a versão “suína” de Stalin. Na visão de Orwell, foi exatamente isso que Stalin fez quando subiu ao poder: se corrompeu, ignorou as leis, considerando apenas seus interesses próprios e ignorando a população. Napoleão conseguiu expulsar Bola de Neve da fazenda, tomando o poder e, mesmo após sua expulsão, Napoleão continuava culpando Bola de Neve por tudo de errado que acontecia na fazenda. Essa conduta é a mesma que Stalin fazia com Trótski, durante a Guerra Civil Russa. Não é à toa que o mandamento “todos os animais são iguais”, em um piscar de olhos, se transformou em “todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que os outros”.

Já o porco Garganta era um bom orador, sendo ele o porta-voz de Napoleão. Ele representava a propaganda comunista, retratando uma realidade completamente distorcida para manter a ordem dos animais. Enquanto os animais trabalhavam e ficavam sem alimentos, Napoleão e Garganta usufruíam e burlavam todas os mandamentos iniciais. Uma figura importante nesse cenário é o cavalo Sansão. Extremamente dedicado à causa operária e um dos personagens mais comoventes da obra, representa a luta do trabalhador.

Já as ovelhas tinham um papel fundamental. Ao menor sinal de crítica ao líder, elas passavam a balir incessantemente “Quatro pernas bom, duas pernas ruim!” Qualquer possibilidade de diálogo era impossibilitada pela barulheira do rebanho, ou seja, elas serviam como massa de manobra. O mais diferente de todos os animais, o burro Benjamin era o único animal alfabetizado da fazenda e o único a não acreditar de fato na revolução, não se manifestava e não lutava pelos seus direitos. Preferiu se omitir e se calar, para continuar sendo subordinado a Napoleão.

Além disso, a fazenda tinha nove filhotes de cães que foram retirados de sua mãe para serem criados por Napoleão, seguindo seus ensinamentos e preceitos desde cedo. Nesse contexto, os cachorros eram alvos fáceis das narrativas de Napoleão justamente por não possuírem contato com o meio externo. Nesse cenário, os cães viviam em um meio autoritário, doutrinador e ditador, não enxergando o que estava à volta deles.

O comportamento dos animais que não tinham conhecimento e não eram alfabetizados comprometia a capacidade de lutar pelos seus ideais. É justamente nesse ponto que o autor frisa a importância da falta de conhecimento que os animais detinham, pois, se o tivesse, não ficariam À mercê das falsas promessas do líder. Com o passar do tempo, todas as promessas e utopias feitas por Napoleão e Garganta para os animais da fazenda já não faziam mais sentido. Isso porque o cenário instalado na fazenda era de exploração, manipulação da verdade e privilégios. No final das contas, os porcos estavam se comportando como humanos, justamente o inverso do discurso preconizado no início da revolução. De modo cruel e realista, os porcos enganam os outros animais e os fazem aceitar todas as suas propostas. Os bichos passam a esquecer o objetivo do movimento (até mesmo o lema da rebelião vai se apagando das memórias e os porcos vão adaptando-o para atender a seus interesses).

A história termina com os animais mortos ou desaparecidos da granja. Em contrapartida, os porcos começam a caminhar em duas patas. Fica claro a crítica que faz, ao conseguirmos reconhecer porcos disfarçados de homens no poder. Os animais retratam justamente a população russa na época em que o livro foi escrito, mas, olhando para o nosso cenário, conseguimos fazer um paralelo com a nossa própria realidade: classe operária e controlada que se submete ao poder de um líder ambicioso e inescrupuloso, se tornando prisioneiros de sua própria Revolução.

Autor

Laís-Simões-Cavalcante

Laís Simões Cavalcante

Associada II

Marca Ambiental

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